
Olho em volta do restaurante em que trabalho. Clientes conversando alto, rindo, fingindo. Aposto que a maioria dessas pessoas não são nem um pouco felizes. Aposto que seus risos são apenas mascaras.
Uma senhora acaba de entrar no restaurante. Os cabelos são mantidos brancos, em formato de coque. As roupas surradas, levando-me a pensar que ela possa passar por dificuldades financeiras. Sua pele desgastada, cheia de rugas e branca. Ela carrega um guarda-chuva, mesmo que lá fora o sol esteja queimando e nenhum indicio de chuva apareça.
_Com licença, senhora- falei
Ela continua entrando no restaurante e olha em volta, me ignorando de forma grotesca. Sinto-me momentaneamente raivosa. Percebo que a velha murmurava baixinho, e enfim decidiu sentar em uma mesa no fundo. Vou ate ela, minha caderneta de pedidos nas mãos. Perguntei-me se seu pedido viria com uma historia de vida. As rugas em seu rosto e as mãos gastas segurando o bendito guarda-chuva pareciam gritar que ela tinha experiência suficiente para encher paginas de um livro de biografia.
_Senhora? Qual e o seu pedido?- Perguntei.
Seus olhos encontraram os meus e sua boca se curvou levemente, formando um sorriso.
_Vou esperar o meu namorado. Ele vem aqui escondido. Nossos pais não permitem nosso namoro, sabe?- ela disse-me, enquanto me dava uma piscadela conspiradora.
Fiquei chocada. Uma senhora gasta, quase em seus dias finais, tinha um namorado? E eu, jovem, bonita, que passo horas na academia tentando chegar o mais perto da figura de perfeição feminina possível, não tenho ninguém. E que historia seria essa, de seus pais não permitirem o namoro? Ela deveria ter 80 anos em media. Como seus pais estariam vivos?
Mas de todo jeito, obedeci. Recolhi minha caderneta e voltei para o balcão, me encostando nele e mantendo os olhos fixos na senhora.
Horas passaram. O restaurante ficou vazio. Faltavam apenas alguns minutos para eu ser obrigada a fechar o estabelecimento. A senhora continuava sentada, ocupando uma mesa e às vezes me mandando piscadelas.
Seu namorado não viera.
Dessa vez, sem nem pegar minha caderneta, sentei-me com ela na mesa, em vez de ficar de pé. Ela me olhou triste. Suas rugas caiam sobre os olhos e suas bochechas enrugadas não eram mais enfeitadas pelo seu sorriso.
_Ele não vem, certo? – ela me perguntou.
Eu sorri para ela simpaticamente. Sentia pena dela. Olhei para o relógio. O ônibus que eu pegava para ir a minha casa demoraria um pouquinho a chegar. Era tempo o suficiente para ouvir uma historia.
_Quer falar sobre isso?-perguntei-lhe.
_Querida, aprenda uma coisa. Homens nem sempre nos dão o valor que merecemos. Não importa a sua idade, a sua aparência. Mas para cada pessoa no mundo, existe uma alma gemia. A pessoa feita para você, como uma roupa encomendada, que se encaixa perfeitamente. - ela disse-me com seus olhos tristes.
_Faça um favor pra mim, querida. Quando achar sua alma gemia, não deixe ninguém separa-los. Não faça como eu, que com 18 anos achei o homem perfeito. Ele era velho de mais para mim e meus pais não aprovaram. Eu era nova o suficiente para não saber o quanto vale o amor verdadeiro. O quanto e raro achar a pessoa perfeita. Ate hoje, espero o mesmo homem reaparecer em minha frente, vivo e bem, para que mesmo depois de velha eu possa vivenciar esse sentimento. - ela continuou, agora praticamente chorando. Ela estendeu sua mão pequena e calejada por cima da mesa e pegou uma das minhas mãos que descansavam ali.
_Me prometa!- ela praticamente ordenou.
Pensei no quão provável eu iria encontrar este homem que ela falava. A probabilidade era mínima. E eu não poderia sair por ai, fazendo promessas vazias para senhoras sem sentido, que imaginam o amor. Dizia a qualquer pessoa que queria ouvir. Não creio no amor. Ele talvez já tenha existido, mas a ruindade humana o extinguiu, deixando apenas a luxuria no lugar e rezando para que a mesma seja o suficiente. Mesmo assim, decidi que faria a tal promessa. Provavelmente nunca mais veria aquela senhora.
Apertei a mão dela e sorri
_Prometo que se achar este homem, irei lutar por ele. - disse-lhe.
Ela sorriu pra mim, e me surpreendendo, levantou a mão e bagunçou meu cabelo.
_Agora tenho que ir. Irei tentar encontrar meu amor em outro lugar. Dizem que este lugar que vou e um dos mais maravilhosos que existe. - ela disse
Em seguida colocou-se de pé, pegou seu guarda-chuva e saiu. Quando prestei atenção, percebi que realmente chovia, e que seu guarda-chuva, antes insano pareceu agora profético. Meu corpo se arrepiou.
Uma semana depois, enquanto lia o jornal, notei uma foto da mesma senhora. Ela tinha falecido de modo misterioso.
Um mês depois, pude realizar a promessa feita a ela. Encontrei o amor da minha vida... O seu filho mais velho, que veio aqui ver os últimos lugares em que sua mãe passou.
O amor só existe para aqueles que acreditam nele.
